Há um tipo de despesa que sai da conta todos os meses sem que ninguém, em casa, tenha decidido nada nesse mês. Não é a renda, que foi decidida e se renova com consciência. São as subscrições: o serviço de música, as duas plataformas de séries, o armazenamento na nuvem, a aplicação de exercício, o jornal, a caixa de correio com mais espaço, o plano do telemóvel com extras que já ninguém lembra.
Cada uma foi uma boa decisão no dia em que foi tomada. O problema não é nenhuma delas. É que a decisão foi tomada uma vez, e o pagamento repete-se doze vezes por ano sem que a pergunta se volte a fazer.
Este texto é sobre fazer essa pergunta, uma vez por ano, de uma forma que não acabe a cancelar o que faz falta nem a manter o que já não faz.
Porque é que as subscrições passam despercebidas?
Porque foram desenhadas para isso, e funcionam.
Uma subscrição tem três características que a tornam invisível num orçamento. É pequena, quase sempre abaixo do valor que faria alguém parar para pensar. É automática, sai sem nenhum gesto teu. E é recorrente, por isso o valor que vês é o do mês e nunca o do ano, que é o número que interessa.
Soma-se a isso que muitas começam grátis. O período de experiência transforma-se em pagamento num dia que ninguém marcou, e a primeira vez que a subscrição custa dinheiro já é a segunda ou terceira vez que sai. Não houve uma decisão de pagar, houve uma decisão de experimentar.
E há o efeito que torna tudo pior: as subscrições acumulam-se. Ninguém subscreve oito serviços num dia. Subscreve um por ano, cada um razoável sozinho, e o total é a soma de oito decisões que nunca foram vistas juntas.
As subscrições são despesas fixas ou variáveis?
Têm a forma de uma fixa e a natureza de uma variável, e é por isso que enganam.
Têm data, têm valor, saem sozinhas: parecem a renda. Mas a renda não é uma decisão deste mês, e uma subscrição é. Podes cancelá-la hoje e amanhã já não sai. É a definição de uma despesa variável, com o disfarce de uma fixa.
Isto importa porque, numa revisão do orçamento, as despesas fixas são as que ninguém olha: "são fixas, não há nada a fazer". Arrumar as subscrições nas fixas é escondê-las precisamente do sítio onde se procura margem. A distinção está contada com mais tempo em despesas fixas e variáveis, e as subscrições são o caso que melhor a mostra.
Quanto custam as subscrições, a sério?
Multiplica por doze, e depois soma.
O exercício mais útil deste texto leva dez minutos. Abre o extrato dos últimos dois ou três meses e procura tudo o que se repete com o mesmo valor e o mesmo nome. Para cada um, escreve o valor mensal e multiplica por doze.
Com uma casa de exemplo, e valores redondos para a conta se ver:
| Subscrição | Por mês | Por ano |
|---|---|---|
| Música | 11 | 132 |
| Séries, plataforma A | 9 | 108 |
| Séries, plataforma B | 8 | 96 |
| Armazenamento na nuvem | 3 | 36 |
| Aplicação de exercício | 10 | 120 |
| Jornal digital | 7 | 84 |
| Total | 48 | 576 |
Quarenta e oito euros por mês parecem pouco. Quinhentos e setenta e seis por ano já são umas férias curtas, um seguro, ou a revisão do carro paga sem ir ao cartão. Nenhum dos valores mudou: mudou o período em que se olha para ele.
E falta uma linha a quase todas as listas: as subscrições anuais. São as que mais surpreendem, porque saem uma vez e são esquecidas onze meses. Procura-as no extrato do ano inteiro, não só dos últimos meses.

Que subscrições cancelar?
As que não passam numa pergunta: se não a tivesses, voltavas a subscrevê-la hoje, a este preço?
A pergunta habitual, "uso isto?", não serve, porque a resposta é quase sempre sim. Usas a segunda plataforma de séries duas vezes por mês, a aplicação de exercício abriu-se em Março, o jornal leste-o na semana passada. Tudo é usado de vez em quando, e "de vez em quando" chega para manter uma subscrição para sempre.
A pergunta certa compara a subscrição com o dinheiro, não com o uso. Se hoje não a tivesses, ias à loja e pagavas por ela este valor, todos os meses? Se a resposta é "não, mas já que a tenho...", essa é uma subscrição herdada. Cancela.
Três sinais ajudam quando a resposta não é óbvia:
- Duas que fazem o mesmo. Duas plataformas de séries raramente se vêem as duas no mesmo mês. Fica uma, e roda: cancelas uma, subscreves a outra quando houver o que ver lá.
- A que pagas pelo ano e usas um mês. Muitas aplicações de exercício e de línguas vivem disto. O plano anual era mais barato por mês, desde que usasses o ano.
- A que subiu de preço sem ninguém reparar. O aviso chega por email, e o email ninguém lê. Se o valor no extrato não é o que te lembras, a pergunta volta a fazer-se ao preço novo.
E as subscrições partilhadas, numa casa a dois?
Contam-se uma vez, e decidem-se a dois.
É frequente uma casa pagar duas vezes a mesma coisa: um tem o plano de música individual, o outro também, e um plano familiar custava menos do que os dois juntos. Ou o inverso: a plataforma de séries está no cartão de um, e é usada pelos dois, e entra numa conta que ninguém está a fazer.
Numa casa que partilha as despesas, as subscrições que os dois usam são despesas da casa e entram na regra de divisão como a luz ou a internet. As que só um usa são pessoais, ficam na conta de quem as usa e não entram em discussão nenhuma. Separar as duas listas é metade da revisão. A regra de quem paga o quê está em como dividir as despesas do casal.
Como se cancelam as subscrições sem voltar a cair nelas?
Pelo sítio onde foram feitas, e com uma data no calendário para a próxima revisão.
Uma subscrição feita pelo telemóvel cancela-se quase sempre nas definições da loja de aplicações, e não dentro da própria aplicação. Uma feita no site cancela-se na conta, no site. Se não sabes onde a fizeste, o extrato diz quem está a cobrar, e esse nome é a pista.
Duas coisas evitam a recaída:
- Cancela no dia, não no fim do período. Quase todas continuam a funcionar até ao fim do mês pago. Cancelar hoje não perde nada, e deixar para o fim costuma acabar em mais um mês.
- Experiências grátis com o lembrete posto no dia em que começam. Não no dia em que acabam: nesse dia já não te lembras.
E uma revisão por ano chega. Não é preciso olhar para isto todos os meses: é preciso que, uma vez por ano, a pergunta volte a ser feita a cada uma.

Vale a pena cortar todas as subscrições?
Não, e é uma das maneiras mais certas de abandonar um orçamento.
Uma subscrição que passa na pergunta é dinheiro bem gasto: é uma coisa que escolhias outra vez, ao preço que custa. Cortá-la para poupar é trocar uma despesa que te dá alguma coisa por uma poupança que te tira alguma coisa, e um orçamento que tira sem dar dura pouco.
O objectivo da revisão não é a lista mais curta. É que cada subscrição que fica seja uma decisão deste ano, e não de há três. Algumas casas acabam a revisão com uma subscrição a menos, outras com quatro. Ambas fizeram bem, desde que a pergunta tenha sido feita.
E o dinheiro que sobra de uma revisão deve ter destino, senão desaparece como desaparecia antes, só que noutra coisa. Mais sobre isso em porque é que o dinheiro desaparece no fim do mês.
Por onde começar a rever as subscrições, hoje
Três passos, e o primeiro é o que dá o susto útil.
- Faz a lista a partir do extrato, não da memória. Tudo o que se repete com o mesmo nome. Inclui as anuais, procurando no ano inteiro.
- Multiplica cada uma por doze e soma. O total anual é o número que faz a revisão valer a pena.
- Passa cada uma pela pergunta. "Subscrevia isto hoje, a este preço?" As que não passam, cancela hoje. As que passam, ficam, e põe na agenda a data da próxima revisão, daqui a um ano.
Temos uma página de perguntas frequentes sobre orçamento e dinheiro do dia a dia, com uma resposta curta a cada uma e o artigo completo a um clique. Se a quiseres ver, está aqui: perguntas frequentes.
Este texto é educativo. Não é aconselhamento financeiro nem recomendação de investimento; para conselho sobre produtos, fala com um profissional registado na CMVM.
