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Despesas fixas e variáveis: a diferença que muda o orçamento familiar

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Fixa não quer dizer que o valor é sempre o mesmo, quer dizer que não podes decidir não a pagar este mês. A luz muda de valor e é fixa; uma subscrição tem sempre o mesmo valor e não é. Separar pelo valor põe as coisas erradas nas caixas erradas, e um orçamento assim não diz onde há margem para mexer.

Toda a gente divide as despesas em fixas e variáveis, e quase toda a gente divide pelo critério errado. A pergunta que se faz é "o valor é sempre o mesmo?", e a pergunta que interessa é outra: posso decidir não ter esta despesa este mês?

Parece uma distinção académica e não é. Um orçamento existe para responder a onde há margem para mexer, e é exactamente isso que a pergunta certa revela e a pergunta errada esconde. A luz muda de valor todos os meses e não podes decidir não a pagar: é fixa. Uma subscrição tem sempre o mesmo valor, ao cêntimo, e podes cancelá-la esta tarde: não é fixa coisa nenhuma, é a despesa mais variável que tens.

Quem separa pelo valor acaba com as contas incancelávais e as cancelávais no mesmo sítio, e depois olha para o orçamento à procura de onde cortar e não vê nada.

Qual é a diferença entre despesas fixas e variáveis?

A capacidade de decidir, este mês, sem mudar de vida.

Uma despesa é fixa quando a decisão sobre ela já foi tomada e não está em aberto agora: um contrato, um empréstimo, uma prestação, um serviço de que a casa depende. Podes mudá-la, mas isso é um projecto, não uma escolha de terça-feira.

Uma despesa é variável quando a decisão está aberta todos os dias: o que compras, onde compras, quanto compras. Não é o mesmo que ser supérflua. Comer é obrigatório; o supermercado desta semana é uma decisão.

Postas em tabela, as quatro combinações vêem-se de uma vez:

Despesa O valor muda? Podes decidir não a ter? Onde vive
Renda ou prestação Não Não Fixa
Luz, água, gás Sim Não Fixa, com o valor do mês pior
Subscrições Não Sim Parece fixa, é variável
Supermercado Sim Sim Variável, com um mínimo

A linha que interessa é a terceira, e é a que quase todos os orçamentos põem no sítio errado.

Duas pastas e um monte de papéis por arrumar. A pergunta que decide em qual entram não é quanto custam, é se podes decidir não as ter.
Duas pastas e um monte de papéis por arrumar. A pergunta que decide em qual entram não é quanto custam, é se podes decidir não as ter.

Porque é que as subscrições são o caso difícil das despesas fixas?

Porque têm a forma de uma conta fixa e a natureza de uma despesa variável, e a forma é o que se vê.

Saem no mesmo dia, pelo mesmo valor, sem ninguém fazer nada. Isso é exactamente o comportamento da renda, e por isso o cérebro arruma-as ao lado da renda e pára de olhar. A diferença é que a renda tem de ser paga e o streaming não, e a única coisa que mantém o streaming a ser pago é ninguém ter voltado a decidir.

O teste é curto e serve para qualquer uma: se cancelares hoje, alguma coisa pára de funcionar amanhã? Se a resposta for não, ou "não sei", não é fixa. É uma despesa variável que se disfarçou, e é a única categoria do orçamento onde cortar não custa esforço nenhum, só uma decisão que ficou por tomar.

Isto liga-se ao que já escrevemos sobre o dinheiro que desaparece sem ninguém decidir nada: as subscrições são a versão dessa história que sai por débito directo.

E as despesas fixas cujo valor muda todos os meses?

Orçamentam-se pelo mês pior, e não pela média.

A luz no inverno e a luz no verão são duas contas diferentes com o mesmo nome. Se puseres a média no orçamento, ficas com um plano que bate certo em Abril e em Outubro e está errado nos outros dez meses, com o agravante de estar errado por defeito precisamente quando a conta é maior.

Põe o valor do mês mais caro do último ano. Nos meses em que a conta vier abaixo disso, a diferença não é dinheiro que sobrou: é a diferença que vai pagar o inverno. Um orçamento que aguenta o mês pior aguenta todos os outros, e a sensação de folga em Julho é falsa quando Janeiro está a dois meses de distância.

Como se estima uma despesa variável sem inventar?

Pelo mês típico, que não é a média nem o melhor mês.

A média mente porque um único mês anormal a puxa inteira. O melhor mês mente porque nunca mais se repete. O que serve é o mês típico: olha para os últimos seis meses dessa categoria, tira o melhor e o pior, e fica com um dos que sobraram no meio.

E há uma segunda parte, que é a que mais falta: uma despesa variável tem um chão. O supermercado não vai a zero, por muito bem que corra a disciplina. Antes de pores um limite numa categoria, pergunta quanto é que ela custa num mês em que tudo corre bem, e não ponhas o limite abaixo disso. Um limite impossível não é ambição, é a garantia de que o orçamento vai ser abandonado ao terceiro mês.

Entre despesas fixas e variáveis, onde está a margem?

Nos dois sítios que a divisão certa acaba de tornar visíveis.

  • Nas despesas que parecem fixas e não são. Subscrições, seguros que nunca foram comparados, tarifários antigos, ginásios que ninguém frequenta. Cortar aqui é uma decisão e não um esforço diário, e é por isso que pega.
  • No chão das variáveis, não no tecto. Reduzir o supermercado em dez por cento todas as semanas é um projecto que cansa. Mudar onde se compra uma vez é uma decisão que dura meses.

O que quase nunca funciona é atacar as fixas a sério, porque mudar de casa ou renegociar um crédito é um trabalho de semanas, e enquanto o orçamento não estiver a funcionar é cedo de mais para isso.

Escrever as despesas em duas colunas é o trabalho todo. A que fica à direita é a que se pode decidir esta semana.
Escrever as despesas em duas colunas é o trabalho todo. A que fica à direita é a que se pode decidir esta semana.

E as despesas eventuais, que não são despesas fixas nem variáveis?

Essas são a terceira gaveta, e são as que costumam faltar por inteiro.

O seguro do carro, o IUC, a revisão, o dentista, o material escolar. Não são variáveis, porque não decides o valor; não são fixas mensais, porque não saem todos os meses. Se as arrumares em fixas, o orçamento fica com uma linha que quase sempre está vazia. Se as arrumares em variáveis, elas estouram a categoria no mês em que aparecem.

Merecem espaço próprio, e a maneira de lhes dar espaço é dar-lhes uma parcela mensal mesmo nos meses em que não sai nada. Está contado por extenso em como fazer um orçamento que sobrevive ao segundo mês, porque é a razão principal por que os orçamentos morrem.

Por onde começar a separar despesas fixas e variáveis, hoje

Três coisas, e a segunda é a que dá o resultado.

  1. Passa a tua lista de despesas pelo teste certo. Não "o valor muda?", mas "posso decidir não a ter este mês?". Algumas vão mudar de caixa.
  2. Olha para as que mudaram de fixa para variável. É aí que está a margem que não estavas a ver, e não custa disciplina nenhuma.
  3. Põe o valor do mês pior nas fixas que variam. Luz, água, gás. A folga do verão é do inverno.

Uma despesa bem arrumada não faz o orçamento render mais. Faz é o orçamento responder quando lhe perguntas onde é que dá para mexer, que é a única pergunta que se lhe faz de verdade.

Temos uma página de perguntas frequentes sobre orçamento e dinheiro do dia a dia, com uma resposta curta a cada uma e o artigo completo a um clique. Se a quiseres ver, está aqui: perguntas frequentes.

Este texto é educativo. Não é aconselhamento financeiro nem recomendação de investimento; para conselho sobre produtos, fala com um profissional registado na CMVM.

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