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Como fazer um orçamento que sobrevive ao segundo mês

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Quase todos os orçamentos morrem no segundo mês, e não é por falta de disciplina. Morrem porque foram feitos de memória, e a memória guarda o que se repete, a renda, a luz, o supermercado, e esquece o seguro do carro, o dentista e a revisão. Um orçamento que dura é um que reserva espaço para o que não aparece todos os meses.

O primeiro mês de um orçamento corre quase sempre bem. Escreves o que entra, escreves o que sai, as contas fecham, e fica aquela sensação de ter finalmente posto ordem nas coisas.

Depois chega o segundo mês, e alguma coisa aparece que não estava na lista. O seguro do carro. A revisão. Uma ida ao dentista. O IUC. Uma prenda que não podia não ser dada. Não é um exagero de consumo nem uma falha de carácter. É uma despesa perfeitamente normal que simplesmente não acontece todos os meses, e por isso não estava lá quando fizeste a lista.

E aqui começa a parte que mata de verdade: o orçamento passa a estar errado, e um orçamento errado é um orçamento que se deixa de consultar. Não se abandona por preguiça. Abandona-se porque deixou de dizer a verdade.

Porque é que o segundo mês é o que mata?

Porque o primeiro é feito de memória, e a memória é boa a guardar o que se repete e péssima a guardar o que aparece uma vez por ano.

Se te sentares agora a escrever as tuas despesas, vais acertar em quase tudo o que sai todos os meses. A casa, a comida, os transportes, as subscrições, o ginásio. Essas repetem-se, e por se repetirem estão à mão.

O que não te vai vir à cabeça é o que aconteceu há sete meses e volta a acontecer daqui a cinco. E o problema não é esquecer uma dessas despesas. É que elas, somadas ao longo de um ano, costumam valer bem mais do que qualquer categoria mensal isolada. Um orçamento que as ignora não está ligeiramente otimista. Está a olhar para outro sítio.

O que falta num orçamento feito de memória?

Falta uma terceira gaveta.

Quase todos começam com duas: o que é fixo e o que é variável. A renda é fixa, o supermercado é variável, e a divisão parece suficiente. Não é, porque há coisas que são perfeitamente previsíveis em valor e imprevisíveis em data, e essas não cabem em nenhuma das duas.

A divisão que funciona tem três gavetas:

  • Compromissos, que têm data e valor conhecidos: a renda ou a prestação, os serviços, as prestações, os seguros mensais.
  • Despesa variável, que tem valor incerto e acontece continuamente: comida, transportes, saídas, o que for.
  • Despesa ocasional, que tem valor razoavelmente conhecido e data espalhada pelo ano: seguros anuais, impostos sobre o carro, revisões, saúde, material escolar, prendas.

A terceira gaveta é a que salva o segundo mês, e é a que quase ninguém escreve. Posto em tabela, vê-se porquê:

Gaveta Sabes a data? Sabes o valor? Como falha num orçamento
Compromissos Sim Sim Conta-se como gasto no dia 1, quando só sai no dia 28
Despesa variável Não Não Estima-se pela memória do melhor mês, não do mês médio
Despesa ocasional Não Sim Não existe no orçamento nenhum

A coluna que interessa é a última. São três falhas diferentes e nenhuma se resolve com mais disciplina.

As chaves do carro, uma carta e uma prenda em cima da mesma mesa da entrada. Nenhuma destas despesas acontece todos os meses, e qualquer uma delas pode aparecer este ano.
As chaves do carro, uma carta e uma prenda em cima da mesma mesa da entrada. Nenhuma destas despesas acontece todos os meses, e qualquer uma delas pode aparecer este ano.

Como se conta com o que só aparece de vez em quando?

Dás-lhe uma parcela mensal, mesmo nos meses em que não sai nada.

Escreve tudo o que aconteceu no último ano e que não acontece todos os meses. Soma. Divide por doze. Esse número passa a ser uma linha do teu orçamento como qualquer outra. Trata-o como se fosse uma conta a pagar, porque é.

A diferença prática é esta: nos meses em que não há nenhuma dessas despesas, essa parcela não é dinheiro que sobrou. É dinheiro que está à espera. No mês em que o seguro chega, já estava pago, repartido pelos meses anteriores, e não tem de sair de nenhum outro sítio.

É a mesma ideia de um fundo para imprevistos, com uma diferença importante: isto não é para imprevistos. É para o previsto que só não é mensal. Confundir as duas coisas leva a gastar o fundo de emergência em revisões do carro, e depois a não ter fundo quando aparece uma emergência a sério.

Já gastei, ou só me comprometi?

São duas coisas diferentes, e confundi-las é o que parte mais orçamentos.

Estás no dia 5. A conta tem dinheiro, e no dia 28 sai a prestação da casa. Quanto podes gastar até lá?

A resposta que quase todas as folhas de cálculo dão é "o que está na conta". Durante vinte e três dias esse dinheiro parece teu, e não é: já tem dono e já tem data marcada. Quem decide com esse número está a decidir com um número inflacionado, e o fim do mês chega como uma surpresa que não tinha nada de surpreendente.

A resposta certa tira as contas marcadas primeiro. São três coisas, não duas:

  1. O que já saiu. Gasto, feito, e já fora da conta, por isso não precisa de linha nenhuma.
  2. O que está prometido e ainda não saiu. Está na conta, tem data, tem valor, e não é teu para decidires.
  3. O que resta. É o único número que serve para responder a "posso?".

Com o mês inteiro a valer 100, para o exemplo não depender de quanto ganhas:

Ainda no dia 5 Leitura errada Leitura certa
O que está na conta 100 100
Contas já marcadas este mês não conta menos 35
Posso gastar 100 65

Cem contra sessenta e cinco, com exatamente o mesmo dinheiro na conta. Não é uma diferença de detalhe: é a diferença entre um mês que fecha e um mês que não fecha, e a decisão que os separa é tomada no dia 5, com um dos dois números à frente.

Um orçamento que só olha para o saldo acerta no último dia do mês e mente durante todos os outros. E é nos outros que se tomam as decisões.

Quanto se deve deixar por atribuir?

Uma parte, não zero.

Há uma tentação forte em atribuir cada cêntimo a uma categoria, porque parece mais rigoroso. Na prática é o que torna o orçamento frágil: qualquer coisa inesperada obriga a mexer no plano, e mexer no plano três vezes é deixar de acreditar nele.

Deixa uma fatia por atribuir, uma proporção do que entra e não um valor fixo, para que acompanhe as mudanças no teu rendimento. Não lhe dês nome. Não é para nada. É precisamente para o que não estava previsto, e a sua função é absorver o choque em vez de o deixar chegar às outras categorias.

Se no fim do mês essa fatia nunca é tocada, é pequena de mais para importar e grande de mais para desperdiçar, e nesse caso corta-a. Se é consumida todos os meses antes do dia 20, o problema não é a fatia: são as estimativas das categorias.

Quantas categorias são precisas?

Menos do que as que te apetece criar.

A vontade natural é dividir tudo em muitas categorias pequenas, porque cada uma parece dar mais informação. O que dá é mais decisões: cada compra passa a precisar de uma escolha, algumas compras cabem em duas categorias, e a classificação começa a ser feita ao calhas. Um orçamento com vinte categorias mal preenchidas diz menos do que um com seis bem preenchidas.

Começa com cinco ou seis, as que pesam mesmo. Se ao fim de alguns meses uma delas for grande e opaca, um "diversos" que come um quinto do mês, parte só essa. As categorias devem nascer de uma pergunta que tenhas, não de uma vontade de arrumar.

O que fazer quando um mês corre mal?

Fechá-lo e abrir o seguinte.

Um mês em que estouraste uma categoria não é um orçamento falhado, é um dado. Mostra uma estimativa errada ou um mês invulgar, e as duas coisas têm resposta. O que não tem resposta é apagar tudo e começar de novo, porque a informação que tinhas ia junto.

E se a mesma categoria estoura três meses seguidos, o problema deixou de ser o mês e passou a ser o número. Sobe-o e baixa outro. Um orçamento que não se ajusta não é disciplina, é ficção.

Como se sabe que está a funcionar?

Há um só teste, e não é "poupei mais".

O teste é: o número no fim do mês deixou de te surpreender. Se a três dias do fim consegues dizer aproximadamente o que vai sobrar, e acertas, o orçamento está a funcionar, mesmo que o valor não seja o que gostarias. E se ainda te surpreende, mais disciplina não resolve; o que falta é uma das gavetas.

Poupar mais vem depois, e vem quase sozinho. É muito mais fácil decidir cortar alguma coisa quando se vê o ano inteiro do que quando se está a adivinhar no dia 20 de cada mês.

Por onde começar, hoje

Três coisas, por esta ordem. Nenhuma leva mais de vinte minutos.

Os recibos de um ano espalhados na mesa e um caderno ainda em branco. É por aqui que se começa: escrever o que já aconteceu antes de planear o que vem.
Os recibos de um ano espalhados na mesa e um caderno ainda em branco. É por aqui que se começa: escrever o que já aconteceu antes de planear o que vem.
  1. Escreve o que aconteceu no último ano e não acontece todos os meses. Seguros, impostos do carro, revisões, saúde, escola, prendas. Soma e divide por doze. É a terceira gaveta, e é a que faltava.
  2. Separa o que está prometido do que está disponível. Se tens contas com data marcada este mês, tira-as do número com que tomas decisões. Só isso já muda o dia 20.
  3. Escolhe cinco categorias, não vinte. As que pesam. As outras aparecem quando tiveres uma pergunta sobre elas.

Temos uma página de perguntas frequentes sobre orçamento e dinheiro do dia a dia, com uma resposta curta a cada uma e o artigo completo a um clique. Se a quiseres ver, está aqui: perguntas frequentes.

Este texto é educativo. Não é aconselhamento financeiro nem recomendação de investimento; para conselho sobre produtos, fala com um profissional registado na CMVM.

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